C63VT : P’ra terem feito da casa o que fizeram / Melhor fora que a mandassem p’ras alminhas

Foi no domingo passado que passei
À casa onde viveu a Mariquinhas
Mas esta tudo tao mudado
Que nao vi em nenhum lado
As tais janelas que tinham tabuinhas
Do rés-do-chao ao telhado
Nao vi nada nada nada
Que pudesse recordar-me a Mariquinhas
E ha um vidro quebrado e isolado
Onde havia as tabuinhas

Entrei e onde era a sala agora esta
Á secretaria um sujeito que é lingrinhas
E nao ha colchas com barra
Nem viola nem guitarra
Nem espreitadelas furtivas das vizinhas
O tempo cravou a garra
Na alma daquela casa
Onde às vezes petiscavamos sardinhas
Quando em noites de guitarra e de farra
Estava alegre a Mariquinhas.

As janelas tao garridas que ficavam
Com cortinados de chita às pintinhas
Perderam de todo a graca
Porque é hoje uma vidraca
Com cercadura de lata às voltinhas
E la p’ra dentro quem passa
Hoje é p’ra ir aos penhores
Entregar ao usuario umas coisinhas
Chegou a esta desgraca toda a graca
Da casa da Mariquinhas.

P’ra terem feito da casa o que fizeram
Melhor fora que a mandassem p’ras alminhas
Pois ser casa de penhor
O que foi viveiro de amor
É ideia que nao cabe ca nas minhas
Recordacões de calor
E das saudades o gosto
Que vou procurar esquecer numas ginjinhas
Pois dar de beber à dor é o melhor
Ja dizia a Mariquinhas.

Vou Dar de Beber À Dor, Amália

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