C116DT : O Sangue


Cemitério do Alto de São João, Praça Paiva Couceiro, Rua Morais Soares, Praça do Chile, Rua Quirino da Fonseca, Alameda Afonso Henriques, Cinema Império, matiné ao domingo, Avenida Almirante Reis, Café do Império, mesas escuras, cadeiras escuras, empregados escuros desaparecendo na maligna penumbra que nos rodeia. Luzes escuras. Infância escura. Vou mostrar-vos o país mais triste do mundo. O ar que respiramos é veneno. Aqui quase não chove, chuvisca. Chuvisca sempre. As ruas cinzentas povoadas por figuras pardas que tentam abrigar-se da chuva: ninguém tem nome nem rosto, apenas casaco ou gabardina cinzenta. Uma cidade de pequenas árvores de Natal, algumas de plástico, outras naturalmente raquíticas. Como vos posso mostrar a obscuridade que envolve a cidade mais triste do mundo? Sento-me num banco de autocarro e estudo cuidadosamente a tristeza das montras que vejo através das gotas da chuva. Noite de Natal ou de Fim-de-Ano, para mim é tudo a mesma coisa. Quero mostrar-vos as montras pardas que abrigam roupa e ferragens cinzentas, da cor do puré de batata que, no café Império, aquele adulto quer obrigar a criança a comer. “Não gosto de restaurantes”, responde a criança, “e não me lembro da tua cara. E eu nunca me esqueço de nada”. Palavras piores do que pancadas. O primeiro tremor da fala… Sinto-me quase feliz: este miúdo recusa-se a engolir o jantar.

Rui Chafes

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